o estouro

janeiro 7, 2012

 

demais

tão pouco

 

tão gordo

tão magro

ou ninguém.

 

risos ou

lágrimas.

 

odiosos

amantes

 

estranhos com faces como

cabeças de

tachinhas

 

exércitos correndo através

de ruas de sangue

brandindo garrafas de vinho

baionetando e fodendo

virgens.

 

ou um velho num quarto barato

com uma fotografia de M. Monroe.

 

há tamanha solidão no mundo

que você pode vê-la no movimento lento dos

braços de um relógio.

 

pessoas tão cansadas

mutiladas

tanto pelo amor como pelo desamor.

 

as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras

cara a cara.

 

os ricos não são bons para os ricos

os pobres não são bons para os pobres.

 

estamos com medo.

 

nosso sistema educacional nos diz que

podemos ser todos

grandes vencedores.

 

eles não nos contaram

a respeito das misérias

ou dos suicídios.

 

ou do terror de uma pessoa

sofrendo sozinha

num lugar qualquer

 

intocada

incomunicável

 

regando uma planta.

 

as pessoas não são boas umas com as outras.

as pessoas não são boas umas com as outras.

as pessoas não são boas umas com as outras.

 

suponho que nunca serão.

não peço para que sejam.

 

mas às vezes penso sobre

isso.

 

as contas dos rosários balançarão

as nuvens nublarão

e o assassino degolará a criança

como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.

 

demais

tão pouco

 

tão gordo

tão magro

ou ninguém

 

mais odiosos que amantes.

 

as pessoas não são boas umas com as outras.

talvez se elas fossem

nossas mortes não seriam tão tristes.

 

enquanto isso eu olho para as jovens garotas

talos

flores do acaso.

 

tem que haver um caminho.

 

com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda

não pensamos.

 

quem colocou este cérebro dentro de mim?

 

ele chora

ele demanda

ele diz que há uma chance.

 

ele não dirá

“não”.

 

 

 

*

Charles Bukowski

O amor é um cão dos diabos

Tradução de Pedro Gonzaga

L&PM

 

 

 

 

O Livro do Fogo

dezembro 11, 2011

Na nossa escola, o aprendizado se dá arriscando a sobrevivência em inúmeros embates de vida ou morte, nos quais a diferença entre viver ou morrer está no conhecimento ou não dos princípios que regem o Caminho da espada. Aprende-se a reconhecer a força e a fraqueza da espada adversária, enquanto se aperfeiçoam a destreza e o domínio no manejo da sua própria espada. A nossa escola de estratégia militar ensina o caminho seguro para a vitória, mesmo no combate individual de vida ou morte contra cinco ou dez adversários juntos. Podemos dizer também que os princípios que determinam a vitória de um só homem sobre dez ou de mil sobre 10 mil são os mesmos. Reflita com atenção sobre isso. É possível tornar-se mestre da estratégica militar treinando sozinho com sua espada até o ponto em que possa reconhecer os estratagemas do adversário, seus pontos fortes e fracos, julgar sua técnica. Com essa prática, você pode vencer até 10 mil adversários. Aquele que aspira conhecer o verdadeiro Caminho da nossa estratégia militar e adquirir o máximo de aperfeiçoamento deverá praticar dia e noite, num constante e eterno aprendizado. Só assim poderá desapegar-se do próprio ego e conquistar a perfeição interna e externa que o levará a uma força extraordinária jamais imaginada. Essa é a postura que o guerreiro deve ter no exercício dos seus deveres.

 

*

Miyamoto Musashi

O Livro do Fogo

Gorin No Sho

Apresentação: Shihan Gosho Motoharu

Introdução e revisão técnica: Sensei Jorge Kishikawa

Início de Verão

dezembro 9, 2011

A piscina nesse início de verão:

Um único nadador: eu.

O único veranista.

Atravessando a piscina de um lado ao outro com braçadas e mergulhando.

No alto do morrinho gramado, a cozinheira e o cortador de grama conversam, ambos sem serviço.

A grama já está cortada e os clientes se resumem a eu, que não vou gastar nada, que nem trouxe dinheiro, que vou pra casa comer os restos do almoço requentados no microondas.

Talvez eles conversem sobre o verão, sobre o calor, sobre a brisa, os prédios que estão sendo construídos ao redor do clube e que estão acabando com a bela vista.

Ela reclama dos latidos do cachorro, ele diz que cachorro preso tá sempre daquele jeito.

Ela diz que deixava ele solto, mas ele começou a criar problemas com os sócios.

Ele diz que não havia nenhum sócio ali, só aquele na piscina (eu),  e que o cachorro poderia ter ficar livre pelo menos por aquela hora.

Ela ficou pensando.

Eu saí da piscina, esperei o sol secar as bermudas e, antes de ir embora, encontrei-os no parquinho, sentados lado a lado no balanço.

O último romântico

dezembro 4, 2011

Eu era novo na cidade, estava há uma semana nesse novo emprego e havia ficado amigo desse cara muito gente boa que estava me ajudando na adaptação tanto à cidade quanto ao ambiente de trabalho. Almoçávamos juntos e ele até conseguiu um lugar pra mim no time da empresa. Essa noite era um sábado, meu primeiro sábado na nova cidade, e saí de carona com ele e a esposa. Demos voltas, eles me apresentaram as melhores e piores festas e os bares mais caros e os mais baratos.

Ao final da noite, voltando pra casa, todos um pouco tontos, passamos por um motel balaqueiro. Eu fiquei olhando pela janela e a esposa do meu amigo disse:

- Esse motel é muito exótico, tem quartos em forma de castelo, fundo do mar, inferno…

Deixei escapar um sonolento “Legal…” enquanto meu amigo disse, forçando um sorriso: “Não sei com quem tu veio aqui, eu nunca vim”.

A mulher dele emendou: “Nem eu, minhas colegas que me contaram”.

Passaram meses, passaram anos.

Um dia encontrei na rua um ex-colega da mesma empresa.

Conversando, falei que fazia tempo que não encontrava aquele velho amigo.

Ele disse que ele e a mulher haviam se separado mas que ele já tinha casado novamente.

Aí lembrei dessa história do motel e contei pra ele.

Ele fez uma cara estranha e depois decidiu contar outra história desse cara.

Diz que ele e a mulher haviam brigado e estavam pensando em voltar.

Estavam dando uma volta de carro até que ele parou em frente a um açude, desceu do carro e começou a caminhar em direção à água.

A mulher pensou que ele ia se matar.

Aí ele foi até a beira do açude, pôs as mãos dentro da água e tirou uma garrafa de champagne que havia guardado ali e abriu-a para comemorar a reconciliação.

E foi isso.

Aí eu fico pensando.

Os sábios não se entristecem nem por causa dos vivos nem por causa dos mortos

novembro 4, 2011

11. “Sem necessidade te entristeces e afliges; contudo, tuas palavras têm grãos de verdade. Elas exprimem a sabedoria do mundo exterior, mas não satisfazem à mente interior; são, pois, apenas a expressão de uma parte da verdade. Os sábios não se entristecem nem por causa dos vivos nem por causa dos mortos.

12. Sabe, ó príncipe de Pându, que nunca houve tempo em que não existíssemos eu ou tu, ou qualquer destes príncipes da terra; igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixe de existir.

13. Assim como a alma, vestindo este corpo material, passa pelos estados de infância, mocidade, virilidade e velhice, assim, no tempo devido, ela passa a um outro corpo, e em outras encarnações, viverá outra vez. Os que possuem a sabedoria sabem isto e não se deixam influenciar pelas mudanças a que está sujeito este mundo exterior.

14. Os sentidos dão-te, pelas apropriadas faculdades mentais, o sentimento do calor e do frio, do prazer e da dor. Mas estas mudanças vêm e vão, porque pertencem ao temporário, impermanente, inconstante. Suporta-as com equanimidade, valentia e paciência, ó príncipe!

15. O homem que não se deixa mais atormentar por essas coisas, – que se conserva firme e inabalável no meio do prazer e da dor – que possui a verdadeira igualdade de ânimo: esse, crê-me, entrou no caminho que conduz à imortalidade.

16. Aquilo que é irreal, ilusório, não tem em si o Ser Real, não existe na realidade, e sim só na ilusão; e aquilo que é o Ser Real, nunca cessa de ser, – nunca pode deixar de existir, apesar de todas as aparências contrárias. Os sábios, ó Arjuna, fizeram pesquisas relativas a isto e descobriram a verdadeira Essência e o sentido interior das coisas.

17. Sabe que o Ser Absoluto, de que todo o Universo tem o seu princípio, está em tudo, e é indestrutível. Ninguém pode causar a destruição desse Imperecível.

18. Estes corpos caducos, que servem como envoltórios para as almas que os ocupam, são coisas finitas, coisas do momento, e não são o verdadeiro homem real. Eles perecem, como todas as coisas finitas; deixa-os perecer, ó príncipe de Pându, e, sabendo isto, prepara-te para o combate.

19. Aquele que pensa, em sua ignorância: “Eu mato” ou “Eu serei morto”, procede como criança que não tem conhecimento da verdade, porque o que É na realidade, é eterno, e o Eterno não pode matar nem ser morto.

20. Conhece esta verdade, ó príncipe! O Homem real, isto é, o Espírito do homem, não nasce nem morre. Inato, imortal, perpétuo e eterno, sempre existiu e sempre existirá. O corpo pode morrer ou ser morto e destruído; porém, aquele que ocupou o corpo permanece depois da morte deste.

21. Quem conhece a verdade de que o Homem real é eterno, indestrutível, superior ao tempo, à mudança e aos acidentes, não pode cometer a estultice de pensar que pode matar ou ser morto.

22. Como a gente tira do corpo as roupas usadas e as substitui por novas e melhores, assim também o habitante do corpo (que é o Espírito), tendo abandonado a velha morada mortal, entra em outra, nova e recém-preparada para ele.

23. O Homem real, o Espírito, não pode ser ferido por armas, nem queimado pelo fogo; a água não o molha, o vento não o seca nem move.

24. Ele é impermeável, incombustível, indissolúvel, permanente, imutável, inalterável, eterno, e penetra tudo.

25. Em sua essência, é invisível, inconcebível, incognoscível. Sabendo isto, não te entregues à aflição pueril.

26. Se, porém, não o crês, e pensas que nascimento e morte são coisas reais, mesmo assim te pergunto: por que te lamentas e entristeces?

27. Pois, em verdade, a morte deriva do nascimento, e o nascimento dimana da morte. Não te aflijas, pois, pelo inevitável.

28. Aqueles que carecem da Sabedoria Interior, ignoram de onde vimos e para onde vamos; conhecem só aquilo que é transitório. No Ser Eterno, todas as coisas são compreendidas no estado invisível; depois se fazem visíveis, e na morte tornam a ser invisíveis. Por que então lamentar?

29. Quanto à alma, o Homem real, Espírito ou Ser Eterno, alguns o tomam por coisa maravilhosa; outros ouvem falar e falam dele como uma maravilha, com incredulidade e sem compreensão. Mas a mente mortal não compreende esse mistério, nem o conhece em sua natureza verdadeira e essencial, apesar de tudo o que foi dito, ensinado e pensado a seu respeito.

30. O Espírito, esse Homem real que habita o corpo, é invulnerável e indestrutível: é a vida mesma. Não há, pois, motivo para te abandonares à aflição e tristeza.

31. Deves estar atento ao teu dever. Tu, que és um príncipe da casa dos guerreiros, tens por dever combater com resolução e heroísmo.

32. O dever de um soldado é combater, e combater bem. O combate justo honra o guerreiro e abre-lhe a porta do céu.

33. Se desistires da legítima luta pela verdade e pelo direito, cometerás um grande crime contra a tua honra, contra o teu dever e contra o teu povo.

34. Os homens de perto e de longe falarão de ti com desprezo, classificando de vergonhoso o teu proceder; e a vergonha e a desonra são piores do que a morte para quem é de nobre nascimento.

35. Todos os generais pensarão que foi por medo que fugiste do campo de batalha, e te tratarão como covarde; e aqueles que até agora te estimam, desprezar-te-ão.

36. Os teus inimigos espalharão má fama a teu respeito; com burla e com desdém falarão de ti e da tua falta de coragem. Poderia acontecer coisa pior?

37. Se fores morto em batalha, o céu dos guerreiros será a tua recompensa; se fores o vencedor, será teu o domínio sobre a terra. Tem, pois, coragem, ó filho de Kunti, e decide-te a combater com ânimo firme!

38. Coma  mente tranqüila, aceita como igual o prazer e a dor, o ganho e a perda, a vitória e a derrota. Cinge-te para a peleja, cumpre o teu dever, e evita assim o pecado.

 

*

Krishna

SANKHYA YOGA

BHAGAVAD GÎTÂ

 

E o quarto voltou a ficar escuro e silencioso

outubro 30, 2011

Minha ex-namorada me acordou de madrugada dizendo que estava grávida e que o filho era meu.

Ela dizia que tínhamos que decidir o que fazer e perguntava insistentemente onde eu estava. Eu disse que estava dormindo, em casa, ela queria saber em que cidade, eu disse que estava em São Paulo e ouvi como que um suspiro dela revelar a esperança em que eu tivesse ido a Porto Alegre.

Perguntei onde ela estava e ela disse que estava dando umas voltas de carro com minha outra ex-namorada.

Pensei que as duas podiam estar bêbadas e cheiradas e fiquei imaginando sobre o que teriam conversado.

Ela disse que o cartão do telefone estava acabando e que eu deveria ligar pra ela. Eu disse que não tinha saldo em nenhum dos dois celulares, mas ela disse que eu tinha sim, tinha bônus, e desligou.

Eu tentei ligar pra ela mas não consegui, não havia saldo nem bônus.

Então voltei a deitar a cabeça no travesseiro e estava quase pegando no sono quando o telefone voltou a tocar. Era ela, dessa vez ligando com o telefone do pai.

- Eu não posso falar muito, ela disse, mas temos que conversar e decidir o que fazer o quanto antes. Temos que sentar que nem gente e conversar, senão eu vou falar pra minha mãe e vou falar pra minha mãe falar com a tua mãe.

- Cara –  não pude deixar de dizer -, de onde tu tirou que esse filho é meu? De onde tu tirou que tá grávida?

- Eu não transei com ninguém depois que a gente transou na última vez que tu veio, e minha menstruação não veio mais depois disso. Esse negócio ta fodendo minha cabeça, só quero que a gente decida rápido o que fazer, eu sei que é teu, se quiser fazer o DNA e pagar esse mico, fica à vontade, eu sei o que eu faço, se tu não sabe, azar o teu.

- Cara… – e eu fiquei pensando no que dizer, mas ainda estava com muito vinho e maconha e sonhos e pesadelos na cabeça – … eu não sei, se for meu filho, massa, beleza, se não for, não sei, eu gosto de ti, se tu precisar de alguma ajuda, cara, pode contar comigo.

Ela começou a chorar.

- É teu, seu idiota. Eu tenho que desligar. Me liga, eu sei que tu tem bônus.

- Cara, não tenho bônus.

- Meu número continua o mesmo, me liga.

Ela desligou.

E o quarto voltou a ficar escuro e silencioso.

Rum: Diário de um Jornalista Bêbado

outubro 29, 2011

Homens de todos os tipos vieram trabalhar no News: de jovens turcos ensandecidos que queriam partir o mundo ao meio e começar tudo de novo até velhos repórteres medíocres e cansados, com panças de cerveja, que queriam apenas uma chance de terminar seus dias em paz, antes que algum bando de lunáticos partisse o mundo ao meio.

Havia de tudo: de homens honestos e verdadeiramente talentosos a degeneradados e perdedores irremediáveis que mal conseguiam escrever um cartão-postal – malucos, fugitivos e bêbados perigosos, um cubano ladrão que carregava uma arma embaixo do sovaco, um mexicano retardado que molestava criancinhas, vigaristas, pederastas e todo tipo de cancros venéreos em forma humana, e a maior parte deles trabalhava por tempo suficiente apenas para conseguir dinheiro para alguns drinques e uma passagem de avião.

Por outro lado, havia gente como Tom Vanderwitz, que mais tarde trabalhou para o Washington Post e ganhou um prêmio Pulitzer. E um homem chamado Tyrrell, agora editor do Times de Londres, que trabalhava quinze horas por dia apenas para impedir que o jornal fosse por água abaixo.

Quando cheguei, o News já existia fazia três anos, e Ed Lotterman estava à beira de um colapso nervoso. Ouvindo-o falar, você imaginaria que Lotterman tinha andado por todos os cantos do planeta, enxergando a si mesmo como uma mistura de Deus, Pulitzer e o Exército da Salvação. Costumava jurar que se todas as pessoas que tinham trabalhado para o jornal naqueles três anos pudessem aparecer de uma só vez diante do trono do Todo-Poderoso – se todos ficassem ali, contando suas histórias e loucuras, seus crimes e delírios – não haveria dúvida nenhuma de que até mesmo Deus cairia de joelhos e começaria a arrancar os cabelos.

*

Hunter S. Thompson

Rum: Diário de um Jornalista Bêbado

Tradução de Daniel Pellizzari

L&PM Pocket

Como estão sendo trabalhadas as concepções estéticas e produtivas?

outubro 28, 2011

Como estão sendo trabalhadas as concepções estéticas e produtivas?

Olha, cara, a gente não quer fazer o melhor filme do mundo, a gente ta só saindo por aí, conversando com as pessoas, ouvindo, e depois vamos mostrar isso pro pessoal sem tomar muito o tempo deles, queremos que seja apenas uma curtida, não queremos torrar a paciência de ninguém, a começar por nós mesmos, por isso é isso aí, é nóiz.

A mina do cara da balança

outubro 27, 2011

A gente tava na fila da balança e tinha esse cara na minha frente com uma camiseta com uma frase do John Lennon nas costas.

Ele e o cara da balança conversavam empolgados.

Quando a namorada desse magrão chegou com o prato dela, o cara da balança disse:

- Mas vai ter que levar ela, não vai me aparecer lá sozinho, hehehe!

Ela ficou sem entender, aí o cara esse da camiseta do john lennon, que era namorado dela, disse:

- Ele vai casar.

A mina ficou meio espantada – eu também.

Aí o gurizão da balança falou:

- Já avisei pra ele não aparecer sozinho, vocês dois tão convidados.

Aí ela perguntou:

- Mas tu vai casar mesmo?

E ele respondeu:

- Sim, primeiro ela vai morar lá em casa, depois a gente vai fazer a papelada e tal.

A mina apertou a mão do namorado e eu disse:

- Massa, cara.

Ele riu:

- Pódescreres.

*

Aí agora de noite fui tomar um café e o café estava quase vazio e eu fiquei bem no meio do balcão, esperando.

A mina trouxe o café e, enquanto servia o café, perguntou:

- Tu não vai no Cachoeirense?

Pensei um pouco, aí lembrei:

- A fruteira?

- Sim.

- Não muito.

- É que eu trabalhava ali até há pouco e parecia que eu te conhecia, já tinha te visto.

- É que eu almoço ali no lado, no Ice.

- Ahmm, daí então.

- É, pódescreres.

*

Foi isso.

*

E aí,

será que

essa é,

ou não é,

a mina do cara

da balança?

*

Traduzindo a Idéia

outubro 25, 2011

Para mim, cada filme, cada projeto, é uma experiência. E como traduzir a idéia que se teve? Como se pode traduzir a idéia de modo a aplicá-la em um filme ou em uma cadeira? Se você teve a idéia, então pode vê-la, ouvi-la, senti-la e conhecê-la. Vamos imaginar agora que você cortou um pedaço de madeira que não ficou exatamente do jeito que queria. Isso o faz pensar um pouco mais até deixar de lado a madeira. O que significa que você está agindo e reagindo. É um tipo de experiência que busca a exatidão.

Com a meditação, esse fluxo aumenta. Ação e reação se aceleram. Você apanha uma idéia aqui e depois se movimenta de um lugar para o outro. É como uma dança improvisada. Você se solta por inteiro.

E nisso não há nada de comandado, uma programação na qual alguém lhe diz: “Pare, sinta o aroma das rosas e sua vida vai melhorar”. Trata-se de um processo interno. Um processo que precisa emergir de dentro de você e crescer e crescer e crescer. A partir daí as coisas realmente se modificam.

Então, transcenda, vivencie o seu Eu Interno – a pura consciência – e veja o que acontece.

 

*

David Lynch

Em Águas Profundas

Traduçãod e Márcia Frasão

Gryphus Editora

O Acossado

outubro 17, 2011

Ainda estávamos filmando nos estúdios Billancourt quando um jovem vestido com uma calça e um paletó surrados, impossíveis de descrever, veio até mim no bar do estúdio. Usava óculos escuros muito antes de os astros do rock os transformarem em moda. Murmurou seu nome, mas não tive a indelicadeza de pedir que repetisse.

- Tenho um papel para sua mulher – disse ele.

Sempre estive aberto para ajudar os jovens que querem vencer na selva do mundo cinematográfico. Apesar de estar sendo pressionado no set, roubei algum tempo para conversar com ele.

- Você tem um roteiro? – perguntei.

- Sim – disse.

Estendeu-me uma caixa de fósforos aberta.

Pude decifrar algumas palavras: “Ele é um baderneiro. Obcecado pelos heróis dos filmes americanos. Ela tem sotaque. É vendedora do New York Herald Tribune. Não é um amor de fato, é a ilusão do amor. Acaba mal. Bem, não. No fim acaba bem. Ou acaba mal”.

- É esse o roteiro?

- Sim. – E completou: – Fiz documentários. Sou um gênio.

Já tinha conhecido centenas de excêntricos, todos futuros gênios. Mas, por algum motivo, acreditei naquele rapaz.

Pediu café, tirou um cubo de açúcar do bolso de seu paletó e o deixou cair na xícara.

- Roubo açúcar dos bares – explicou ele.

Diante dele havia um recipiente repleto de cubos de açúcar. Pelo que pude entender, o açúcar roubado era mais saboroso.

- Vou conversar com Annette – disse-lhe.

Apontou para a caixa de fósforos e sugeriu:

- Mostre a ela o roteiro.

Falei com Annette sobre o assunto no set.

- Há um rapaz querendo que você atue em seu filme.

- Quem é ele?

- Não sei. Mas parece que sabe o que quer.

Ela havia lido em algum lugar que os grandes atores e atrizes nunca aceitam um papel antes de terem lido o roteiro final.

- Ele tem um script?

- Tem.

Mostrei-lhe a caixinha. Ela caiu na gargalhada.

- Você deveria conversar com ele – disse eu.

- Você está caçoando de mim.

Dirigi a seqüência seguinte e voltamos ao bar. O homem de óculos escuros ainda estava ali.

- Ela quer um roteiro com diálogos – disse-lhe eu.

- Ah, sim. Isso é natural.

Apanhou alguns cubos de açúcar do recipiente, levantou-se, agradeceu-me e foi embora. Meu assistente, Jean-Michel Lacor, que viera à minha procura, indagou:

- Você o conhece?

- Não.

- É Jean-Luc Godard.

*

Roger Vadim

Perecerá como uma nuvem despedaçada?

outubro 7, 2011

37. Arjuna:

“Qual é, porém, a sorte daquele, ó Mestre, que está cheio de fé, mas não atinge a perfeição em Yoga, porque não domina a sua mente, que se afasta do caminho da disciplina?

38. Perecerá, talvez, como uma nuvem despedaçada pelos ventos? Será ele reduzido a nada, sendo repelido tanto deste mundo, como do mundo superior, porque caminha, incerto e inexperiente, pela senda que conduz ao Brama, ao Absoluto?

39. Responde-me, ó Divino, porque tu, unicamente, poder dar-me explicação satisfatória e dissipar as minhas dúvidas.”

40. Krishna:

“Não, meu caríssimo, não perecerá o homem em tais condições; não será aniquilado nem neste mundo, nem nos vindouros. A fé conserva-o vivo, a sua bondade preserva-o da aniquilação. Não se perde nunca quem vive honestamente e em Mim confia.

41 A alma, cuja devoção e fé, acompanhadas de boas obras, carecem da aquisição da perfeita disciplina, depois da morte do corpo, vai habitar o céu dos justos que ainda não atingiram a Perfeição (devakhan). Ali fica gozando de felicidade por inúmeros anos, mas, depois, reencarna-se em casa de um homem bom e nobre, nas condições adaptadas ao seu desenvolvimento e adiantamento.

42. Pode nascer, nesta nova encarnação, como filho de um yogi adiantado, se bem que tal nascimento seja difícil obter-se neste mundo, atrasado moralmente.

43 Na sua nova existência, o homem recupera novamente toda a organização espiritual que tinha adquirido na vida passada, e, assim, fica preparado para continuar os estudos e as tarefas que conduzem à Perfeição.

44. Com a morte, não se perde nada daquilo que a alma adquiriu. As experiências que o homem fez nas vidas passadas tornam-se instintos e incitam-no ao progresso, até inconscientemente. Mesmo que só tivesse desejado conhecer Yoga, recupera esse desejo, e com o decorrer do tempo transcende os liames da matéria.

45. Trabalhando com paciência, perseverança e aplicação, sendo livre dos erros e plenamente desenvolvido pelas experiências, ganhas em suas múltiplas encarnações, o yogi chega ao alvo procurado, à Paz e à Meta Suprema.

46. Como vês, yogi é aquele que procura a Verdade e, confiando na Justiça da Lei Absoluta, sempre faz o melhor que pode. É maior do que um asceta ou fanático que procura obter mérito, impondo-se penas e martírios voluntários a si mesmo. É superior aos eruditos e aos que praticam boas obras com desejo de recompensa.

Sê, pois, ó Arjuna! também um yogi, cheio de fé e bondade!

47. De todos os yogis, Eu prefiro, porém, aquele que Me adora com fé e a Mim dedica o interior da sua alma; aquele cujo coração transborda Meu Amor e cuja mente sempre sente a minha presença e, com ela, a Paz Suprema”.

*

Bhagavad Gita

Tradução de Francisco Valdomiro Lorenz

Editora Pensamento

Acabou de acontecer

outubro 5, 2011

- Vi esse magrão com cara de cagão entrando e já colei junto, ele ficou na frente das bolachas recheadas, o dedo na boca pensando em qual levaria, eu fui direto e abracei uma garrafa de Nono David Tinto Seco e fiquei por ali, perambulando, até a hora em que o magrão foi no caixa. Coloquei o vinho do lado das bolachas, passei por trás, fiquei do lado dele, ele me olhou, se cagou todo ao ver essas merdas de talhos na cara, pagou, me alcançou a garrafa e eu saí abrindo e bebendo até chegar aqui, agora, no computador.

Uma manhã única e idêntica a todas as outras

outubro 4, 2011

A construção do prédio eleva-se perigosamente acima da calçada e os caminhantes preferem passar pelo meio da rua pouco movimentada do que embaixo da possibilidade do estilhaço, do tijolo sorrateiro, da mão malemolente do pedreiro cansado.

Quando passo em frente ao portão da obra, vejo sair dali um gaúcho vestindo bombacha, bota, lenço, colete e boina, tudo impecável, no que radicalmente contrastava daqueles com quem discutia, uma turma de 4 pedreiros, todos vestidos com calças azuis manchadas e camisetas brancas esfarrapadas.

A história era que tinha caído alguma coisa em cima do carro do gaúcho e era isso mesmo.

Fiquei procurando o carro riscado ou amassado ou destruído mas não encontrei.

Na outra calçada ouvi essa senhora marcar um encontro com esse senhor dizendo Sete, sete e meia, fica bom pra ti?, com uma voz que era um sorriso e um olhar difíceis de encontrar, uma vibrante expectativa pulsando no ar.

Noutra quadra, o dono de um estacionamento conversava com um flanelinha:

- Cheguei oito e vinte e cinco na garagem hoje, ele tava escorado no portão, dormindo, abraçado numa garrafa, sabe bêbado abraçado na garrafa? Assim que ele tava. Acordei ele, ele disse que tinha brigado com a mulher, que tinha vindo ali pegar o carro, que queria ir embora, mas agora não sabia mais. Eu disse pra ele “Te acalma, essas coisas são assim mesmo, melhor ter alguém que tu possa ficar longe de vez em quando do que alguém que tu só possa ficar perto de vez em quando.” Entendeu?

O flanelinha demorou para perceber que se esperava dele uma resposta, mas, quando deu-se conta disso, de imediato disparou Sim, sim, essas coisas são mesmo assim.

Na praça, uma repórter grava uma matéria sobre o clima enquanto eu passo atrás dela rabiscando no caderno de notas.

Atravesso o sinal vermelho desviando dos carros e deixando um péssimo exemplo para a menina que esperava de mãos dadas com a mãe junto ao meio-fio.

Um casal de 50 anos passa por mim de mãos dadas e eu fico me perguntando O que será que ainda une esses dois?.

Em frente à casa lotérica, outra repórter faz uma reportagem sobre a mega sena acumulada.

Vejo aquilo como uma premonição mas prefiro gastar o dinheiro com café.

Junto ao balcão, um senhor com os cabelos bem penteados fala para seu amigo que exige precisão, metro a metro, palmo a palmo. Do lado de fora passa um vagabundo desgrenhado com o nariz cortado.

O amigo do homem de cabelos bem penteados fala sobre pontos de referência e eu lembro de uma história do meu avô, de um domingo no sítio, acho que depois do almoço, quando, para fazer a digestão, ele resolveu dar uma caminhada pelo campo enquanto usava de quando em quando sua técnica de medir a idade das árvores abraçando-as – meu avô trabalhou muitos anos na ceee e ergueu muitos postes de luz pelo rio grande afora, daí seu contato com os postes de madeira, as árvores, e esse método de abraçar o tronco da árvore para medir sua espessura e idade. Enfim, meu avô saiu para dar um passeio. E não voltou mais.

Algumas horas depois ele foi encontrado há mais de 8 quilômetros, num outro sítio. Disse que havia se perdido e passado sede e que o sol tinha-lhe castigado um pouco. Meu avô já estava com quase 80, mas, alguns poucos anos antes disso, ainda cabeceava na área quando cruzávamos a bola.

Do outro lado do café senta um cara que há pouco tempo havia perdido o irmão. Alguns meses atrás eu estive ali com alguns amigos e encontramos esse cara e meus amigos o consolaram pela perda, que era na época bastante recente, e ele disse que estava tudo bem, mas seus lábios não transmitiam os sorrisos que formavam.

Agora, de novo, vendo-o ao longe, parece não ter mudado em nada. Talvez tenha sido sempre assim, e esse acontecimento do irmão seja um fator determinante na sua personalidade somente para mim, mas há a possibilidade de que não.

No calçadão, um rapaz tenta vender um livro de poesias feito à mão em frente à c&a.

Uma índia tenta vender pequenos tigres e tucanos de madeira.

Pelo menos uma dezena de cachorros dorme sob o sol.

Um japonês com uma calça de plástico sai de uma tabacaria fumando um cigarro.

Jovens matam aula e descarregam a energia chutando uma garrafa.

Eu compro uma laranja.

Na biblioteca, deixo minha mochila e fico com a ficha 26.

Leio dois contos de terror do Dickens e outro de amor do Edgar Allan Poe.

Na saída, encontro essa menina tentando tirar a corrente da bicicleta. Dou risada e ela pede ajuda. Eu ajudo e tiro a corrente. Ela agradece e trocamos sorrisos.

Acompanho-a com o olhar.

Por que razão as palavras me parecem tão tristes e frias

outubro 2, 2011

Um fluxo de alegria ainda mais terna brotou-lhe do coração e expandiu-se numa cálida torrente em suas artérias. Como o brilho suave das estrelas, imagens de sua vida em comum, que ninguém conhecia nem jamais viria a conhecer, iluminaram-lhe a memória. Gostaria de recordar-lhe esses momentos, fazê-la esquecer os anos insípidos da vida conjugal e lembrar apenas dos instantes de êxtase. Sentia que nem sua alma nem a dela tinham sido aniquilados pelos anos. Os filhos, os livros, os trabalhos domésticos não haviam extinto a delicada chama de suas almas. Numa carta que escrevera, ele dissera: “Por que razão as palavras me parecem tão tristes e frias? Será porque não existe palavra bastante suave para ser teu nome?”

*

James Joyce

Os Mortos

Dublinenses

Tradução de Hamilton Trevisan

Editora civilização brasileira

Correnteza

outubro 1, 2011

Como tem acontecido nos último dias, o gato me acorda com os sons vindos de seus violentos ataques ao sofá.

Ao me ver acordado, pula para a cama e passa a destroçar minha mão com unhadas e mordidas. Ele é jovem e ainda está conhecendo melhor suas capacidades.

Abro a janela e encaro o dia cinzento de garoa.

No armário da cozinha encontro a lata de café vazia.

Coloco uma calça e um tênis, um moletom e uma jaqueta, o boné e o capuz, e saio para a rua deixando o gato ouvindo uma coletânea de músicas das trilhas sonoras dos filmes do tarantino.

Na rua, a chuva, o frio e a fome.

Na esquina, estilhaços de metal e plástico, um espelho retrovisor no chão, restos mortos de um acidente passado.

Diante da boate mais agitada das madrugadas, o carroceiro carrega um saco de latas para cima da carroça e depois pega o filho no colo e dá a ele as rédeas do cavalo.

Sigo caminhando sem parar.

O segurança armado de uma empresa de venda de materiais hospitalares parece inseguro com minha aproximação, talvez seja o capuz em cima do boné, ou a barba, ou meu olho, não sei, mas fico pensando que do nada ele poderia sacar a arma e me dar um tiro.

Mas isso não acontece.

Quando passo por ele, ele coloca as mãos no bolso e pigarreia.

Guarda-chuvas atravessam todo o horizonte. Gotas de água ameaçam despencar da aba do meu boné. Apesar disso, sinto-me mais forte e seguro do que os passantes que tentam se proteger – do quê? -, enquanto correm, desviam, pulam, embarcam.

Na praça, contrastando com o céu, as árvores florescem em cores macias e sedutoras.

Uma chuva de flores amarelas ilumina um gramado.

No calçadão, debaixo de uma marquise, as funcionárias de uma loja, fumando, falam com voz alta. Uma se destaca:

- Ser mãe e pai ao mesmo tempo não é fácil.

Eu, que não sou nada nem ninguém, que sequer existo, vou até o banco para confirmar a expectativa.

Caminho sem pressa alguma, indo, por alguns instantes, a lugar nenhum.

Encontro a fonte vomitando água, em dias de chuva eles a ligam, esperando, quem sabe, entrar em sincronia com a natureza através desse recurso.

Meninas vendem chips de celular por 3 reais. Meninas entregam folhetos e compram ouro e vendem remédios. No supermercado, todas as caixas são meninas, e o único homem ali dentro fica junto à balança de frutas e verduras. Uma funcionária do mercado, regulando de idade com esse sujeito, mas claramente novata no serviço, pergunta a ele o que fazer com as caixas de papelão que segura na mão. Ele responde para jogar no lixo, mas ela não compreende, diz que pode fazer alguma coisa com aquilo, nem que seja pros bicho cagar em cima. Ele fica um pouco irritado com essa conversa diante dos clientes e diz para ela perguntar para outra pessoa e ela sai dali levando consigo as caixas de papelão.

Passo no caixa e ganho uma moeda de 5 centavos. O segurança fica me encarando, mas, assim que olho para ele, seu celular começa a tocar e ele atende e é a mãe dele e ele abre um sorriso e fala alto, diz que está com saudades e esse tipo de coisa e eu vou embora sem ser notado nem vigiado.

Os guarda-chuvas tomam conta da calçada, exatamente do lado da calçada onde uma loja possui um toldo.

Atravesso a rua e caminho debaixo da chuva.

Chego na esquina e encontro uma profusão de guarda-chuvas, todos tentando se proteger do vento, da água e sei lá do que mais essa gente acha que precisa se proteger.

Esperamos diminuir o tráfego, e, quando ele abre uma brecha, uma menina vem correndo de lá pra cá e um senhorzinho, que estava ao meu lado, tenta fazer o mesmo no sentido contrário. Ele escapa do primeiro carro, mas não do que vinha logo atrás, um gol ou um corsa verde.

Vejo as duas pernas do senhor quebrarem e a cabeça dele chocar-se contra o pára-brisas e seu corpo rolar pelo teto do carro até cair inerte na rua. A trilha sonora para essa cena é o canto dos pneus freados derretendo e escorregando sobre o asfalto.

Do carro desce um cara, os comerciantes da região vão até o corpo no chão, alguém liga para a ambulância, uma estudante de enfermagem se apresenta, o motorista suspira com a mão na testa, e o guarda-chuva do morto jaz de cabeça para baixo junto à correnteza formada na sarjeta.

Sigo minha própria correnteza e chego em casa, encontro o gato dormindo ao lado do monitor, preparo um café e escrevo essa história.

Vingança Prorrogada

setembro 30, 2011

Nos reconhecemos de imediato.

Há um tempo atrás esse cara tinha levado eu e o meu amigo até o buraco mais fundo da favela iludindo-nos com a promessa de um beck fantástico.

Era noite e já estávamos na segunda garrafa de vinho.

Descemos até o lugar onde a água é feita de esgoto e as casas são construídas com lixo.

Ele pediu dez reais e entrou por uma ruela.

Nós esperamos, bebendo vinho, os últimos imperadores romanos, embaixadores da antiga ordem mergulhados no caos da modernidade.

Ele nunca mais apareceu.

Até agora, até esse momento em que nos reconhecemos, quase uma da tarde, em frente ao portão da melhor boca de fumo da cidade.

Ele é mais baixo do que eu. E eu não gosto de ser enganado.

Sem dar tempo para qualquer ação, o Darlinton abre o portão, sai, olha para os dois lados da rua e nos manda entrar.

Entramos e o Darlinton pergunta O que seria?

Como o vagabundo hesita, eu tiro vinte reais do bolso e digo Uns vinte pila de beck, Darlinton.

Ele pega o dinheiro e depois olha pro outro cara.

- E tu?

- Tenho que falar contigo, Darlinton, depois a gente conversa, respondeu ele, deixando a entender que seguiria uma futura conversa entre marginais, bandidos, o tipo de evento em cuja lista de personagens não se encontra o Mero Maconheiro.

Mas eu sabia que ele estava dizendo aquilo só para o Darlinton me despachar antes e ele poder ficar ali mais um pouco enquanto eu ia embora.

O Darlinton disse para sentarmos num banco de pedra e sumiu nos fundos da casa.

Sentamos lado a lado.

Pensei em dizer alguma coisa, mas apenas fiz valer minha presença.

Ele coçava a testa.

E aí teve esse momento em que eu olhei pra ele e ele olhou pra mim e eu percebi que o inseto ali era eu.

Alguma coisa grande ia acontecer.

Baixei a cabeça.

Fiquei olhando as pedras no chão de areia batida.

Dei um longo suspiro.

Vi a figura do Darlinton reaparecendo com o embrulho na mão.

- Olha aí, tá arregado.

Levantei, peguei o beck, falei Massa, massa, fomos juntos até o portão, ele abriu o portão, saiu pra fora, olhou para os dois lados, disse que eu podia sair e quando eu saí ele disse É isso aí, cara, e eu disse Valeu, Darlinton.

E ele começou a entrar para dentro e fechar o portão quando eu disse Cara, e ele me olhou, e eu continuei Cara, quanto tu faz o meio-quilo?, enquanto com a mão fazia um sinal para ele vir para fora.

Ele voltou para fora.

E aí eu disse baixo Cara, acho que esse cara quer te matar.

Ele levantou a cabeça na hora.

Me olhou.

Ergueu a camisa.

Mostrou a adaga.

E disse:

- Eu sei.


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