Seymour, uma apresentação

By Bernardo

A presença dos atores sempre me convence, para meu horror, de que é falso quase tudo o que escrevi sobre eles até o momento. É falso porque escrevo sobre eles com um amor constante (mesmo agora, ao escrever estas palavras, isto também se torna falso), porém com uma competência variável, e essa competência variável impede que os verdadeiros atores sejam representados de forma clara e correta, embotando-se, pelo contrário, neste amor que jamais se satisfará com a competência e, por isso mesmo, crê estar protegendo os atores ao impedir essa competência de se manifestar.

Em linguagem figurada, é como se um autor tivesse cometido um erro de escrita e esse erro se tornasse consciente de sua existência. Talvez não se tratasse de um erro, e sim, num plano muito mais elevado, de parte essencial de toda a composição. Nesse caso, é como se o erro, por puro ódio do autor, se rebelasse contra ele, proibindo-o de fazer a correção, e proclamasse: “Não, não serei apagado, aqui ficarei como testemunha contra ti, de que és um péssimo escritor”.

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Às vezes, para ser franco, não dou muita bola pra isso, mas, aos quarenta anos de idade, considero meu velho amigo das horas boas, o leitor comum, como meu último confidente profundamente contemporâneo; quando ainda bem garoto, fui instado de modo enérgico, pelo mais estimulante e fundamentalmente menos presunçoso artesão público que já conheci em pessoa, a tentar manter uma apreciação sóbria e serena dos encantos desse relacionamento, por mais peculiar ou terrível que viesse a se revelar; no meu caso, ele cedo anteviu o que me aguardava. O problema é: como pode um escritor apreciar tais encantos se não tem a menor idéia de como é o seu leitor comum? Sem dúvida, o inverso é bastante usual, mas quando é que se pergunta ao autor de uma história qual a imagem que ele faz de seu leitor? Por muita sorte, para seguir adiante e dizer logo o que vai na minha cabeça – e não creio que se trate de algo capaz de sobreviver a um intróito interminável -, faz muitos anos descobri praticamente tudo o que precisava saber acerca de meu leitor comum; quer dizer, de você. Temo que você o negará com todo o vigor, mas na verdade não posso aceitar sua palavra nessa matéria. Você é um grande amante de pássaros. Assim como o personagem de um conto de John Buchan, intitulado “A ilhota de Skule”, que o Arnold L. Sugarman, Jr. certa vez me fez ler durante um período de estudo muito mal supervisionado, você é alguém que se interessou pelos pássaros acima de tudo porque eles incendiaram sua imaginação; eles o fascinaram porque “de todos os seres, pareciam os mais próximos do espírito puro – essas criaturinhas que têm temperatura normal de 52 graus”. Provavelmente, tal qual a esse personagem de John Buchan, lhe tenha ocorrido uma série de pensamentos palpitantes; não tenho dúvida, por exemplo, de que pensou: “O pintassilgo de crista dourada, com um estômago do tamanho de um feijão, atravessa voando o Mar do Norte! O maçarico, que se acasala tão ao norte que até hoje só três pessoas viram seu ninho, vai passar as férias na Tasmânia!” Naturalmente, não tenho o direito de esperar que meu próprio leitor comum seja uma dessas três pessoas que viram um ninho de maçaricos, mas, pelo menos, acho que o conheço – isto é, a você – suficientemente bem para imaginar que tipo de gesto bem-intencionado de minha parte poderia agradar-lhe neste justo instante. Assim, pois, meu velho confidente, num espírito de congraçamento, antes que nos juntemos aos demais – os que estão encalhados aí por toda parte, inclusive, estou certo, os loucos do volante de meia-idade que insistem em nos mandar para a Lua, os vagabundos que se crêem iluminados por Buda, os fabricantes de cigarros com filtro para os homens que sabem escolher o melhor, os beatniks, os mal-ajambrados e os petulantes, os adeptos de cultos obscuros, todos os imponentes peritos que tão bem sabem o que devemos ou não fazer com nossos humildes órgãos sexuais, todos os jovens barbudos, orgulhosos e iletrados, bem como os guitarristas sem talento, os assassinos do budismo zen e os delinqüentes juvenis de roupas padronizadas, todos esses que, do alto de sua infinita ignorância, olham para este esplêndido planeta por onde (por favor, não me interrompa agora) passaram o Biriba, Cristo e Shakespeare -, antes de nos juntarmos a todos eles, eu muito particularmente lhe peço, velho amigo (para dizer a verdade, quase imploro), que aceite de mim este despretensioso buquê de recém-desabrochados parênteses: (((()))). De forma muito pouco floral, desejo com ardor que eles sejam antes de tudo recebidos como símbolos propiciatórios – algo sinuosos ou mesmo recurvos – de meu estado físico e mental ao escrever este texto. Profissionalmente falando, única forma em que sempre gostei de falar (e, apenas para me fazer ainda menos simpático, falo sem cessar nove línguas, quatro das quais mortas e enterradas) – profissionalmente falando, repito, sou um homem extaticamente feliz. Como nunca fui. Ah, uma vez, quem sabe, aos catorze anos, quando escrevi um conto em que todos os personagens tinham cicatrizes de duelo como os estudantes de Heidelberg – o herói, o vilão, a heroína, sua velha ama, todos os cachorros e cavalos. Naquele momento cheguei a ficar razoavelmente feliz, é verdade, mas não extaticamente feliz, como agora. Vamos ao ponto: bem sei, melhor talvez do que ninguém, quanto pode ser extenuante compartilhar da companhia de um escritor em êxtase de felicidade. Claro, os poetas nesse estado são, de longe, os mais “difíceis”, porém até mesmo o escritor de prosa em tais condições jamais consegue se comportar de modo adequado; afinal, divino ou não um acesso é um acesso. E, embora eu acredite que um escritor de prosa em estado de felicidade total possa produzir muita coisa boa numa página impressa – o que tem de melhor, é o que espero, na realidade, – também é fato, e infinitamente mais óbvio, que ele jamais conseguirá ser moderado, prudente ou enxuto, pois perde quase todos os seus parágrafos curtos. E nem se pode manter imparcial – ou, se pode, apenas de vez em quando e de modo suspeito, nas marés baixas. Movido por algo tão intenso e absorvente quanto a felicidade, ele é obrigado a se privar do prazer menor, conquanto sempre agradável para o escritor, de aparecer na página sentado, sereno, no muro. O pior, creio eu, é que ele se torna incapaz de atender à ânsia mais premente do leitor, qual seja a de ver o autor entrar logo de cara na história. Daí, em parte, o nefasto oferecimento de parênteses que fiz algumas frases atrás. Bem sei que muitas pessoas de inteligência perfeitamente normal são incapazes de aturar comentários parentéticos enquanto uma história está sendo contada. (Ficamos sabendo dessas coisas pelo correio – sobretudo, cabe reconhecer, graças aos estudantes envolvidos na preparação de teses, os quais não conseguem sofrear o anseio muito natural de nos inebriar com suas idéias nas horas de folga. Mas nós lemos, e em geral acreditamos: bom, mau ou indiferente, qualquer encadeamento de palavras prende nossa antenção como se viesse do próprio Próspero.) Gostaria de deixar claro que meus apartes não só vão multiplicar daqui por diante (a bem da verdade, nem sei se não haverá uma ou outra nota de pé de página), como também que tenho a firme intenção de pular vez por outra nas costas do leitor caso veja, às margens do leito bem demarcado do enredo, algo tão excitante ou interessante que me obrigue a conduzi-lo até lá. A velocidade aqui não significa nada para mim, por mais que isso vá de encontro à minha condição de cidadão norte-americano. No entanto há leitores que, com toda a seriedade, só admitem ter sua atenção despertada mediante o emprego dos métodos mais comedidos, mais clássicos e possivelmente mais sutis; a esses eu sugiro – tão honestamente quanto pode um escritor sugerir esse tipo de coisa – que se retirem agora, enquanto, assim imagino, podem escapar numa boa. Provavelmente continuarei a assinalar as saídas disponíveis ao longo do percurso, mas não garanto que venha a fazê-lo com tanta sinceridade no futuro.

Gostaria de começar com um comentário algo copioso acerca das duas citações iniciais. “A presença dos atores…” é de Kafka. A segunda – “Em linguagem figurada, é como se um autor tivesse cometido um erro de escrita…” – é de Kierkegaard (e quase esfrego as mãos de contentamento, por menos elegante que seja tal gesto, ao pensar que essa passagem de Kierkegaard pode perfeitamente pegar alguns existencialistas e certos mandarins franceses badalados demais com suas… – bem, de surpresa).² [² Esse pequeno doesto é absolutamente condenável, mas o fato de que o grande Kierkegaard jamais foi kierkegaardiano, e muito menos existencialista, enche de irreprimível alegria o coração de um intelectual de terceira categoria, além de reafirmar sua fé numa justiça poética de dimensões cósmicas, se não num Papai Noel também cósmico.] Não estou cem por cento convencido de que alguém precise de motivos inatacáveis para fazer citações dos autores de que gosta, mas é sempre agradável, isto eu concedo, ter algum bom motivo. Nesse caso, parece-me que as duas passagens, sobretudo postas lado a lado, são fabulosamente representativas, em certo sentido, do melhor não apenas de Kafka e Kierkegaard, como de quatro homens já falecidos, os quatro diferentemente notórios Homens Doentes ou solteiros desajustados (dos quatro, talvez só Van Gogh seja dispensado de visitar estas páginas) a quem com mais freqüência recorro – vez por outra movido por verdadeira angústia – sempre que desejo uma informação totalmente digna de crédito sobre os processos artísticos contemporâneos. Em essência, reproduzi as duas passagens para tentar sugerir com absoluta clareza como creio me situar em relação ao volume de informações que espero reunir aqui – coisa que, não me importo nada em dizer, em certas situações um autor não pode explicitar muito, ou cedo demais. Em parte, no entanto, seria gratificante imaginar, sonhar, que essas duas breves citações fossem de alguma utilidade para a geração relativamente nova de críticos literários – esses trabalhadores (soldados, penso que se pode dizer) que labutam por longas horas, com esperanças cada vez mais minguadas de destaque, em cursos universitários que mais parecem agitadas clínicas neofreudianas. Sobretudo, talvez, para os estudantes ainda muito jovens e futuros críticos literários – eles próprios implicitamente estuantes de saúde mental, eles próprios (parece-me inegável) inerentemente livres de qualquer atração mórbida pela beleza – que um dia pretendem especializar-se em patologia estética. (Esse, admito, é um assunto que me tira do sério desde que, aos onze anos, assisti ao artista e Homem Doente que mais amei no mundo, nessa época ainda usando calças curtas, ser examinado por um conceituado grupo de freudianos profissionais durante seis horas e 45 minutos. Em minha opinião, que está longe de ser isenta, só faltou lhe arrancarem um pedaço do cérebro para exame de laboratório, e faz muitos anos sou perseguido pela idéia de que só o adiantado da hora – duas da manhã – os dissuadiu de fazer exatamente isso. Assim, decerto tenciono soar irritado aqui. Irascível, não. Sei que uma linha muito tênue separa as duas atitudes, porém prefiro correr o risco de caminhar em cima dela por mais um minuto; esteja ou não preparado, esperei muitos anos até coletar esses sentimentos e desabafá-los.) Como é natural, correm sempre os mais variados boatos sobre o artista excepcionalmente criativo – e estou me referindo aqui apenas a pintores, poetas e escritores de corpo inteiro. Um desses boatos – para mim de longe o mais hilariante – é o de que, mesmo na idade das trevas pré-psicanalíticas, ele jamais reverenciou seus críticos profissionais; pelo contrário, devido à sua visão quase sempre deformada da sociedade, em geral os confunde com meros editores, agentes de venda e outros negociantes das artes, talvez dignos de inveja por sua prosperidade mas que, como quiçá o próprio artista admita, exerceriam se pudessem uma ocupação diferente e quem sabe mais limpa. Entretanto, ao menos hoje em dia, o que mais se ouve acerca do poeta ou pintor enfermo mas surpreendetemente produtivo é que ele constitui um caso “clássico” de neurótico superdotado, um ser aberrante que só às vezes, e nunca sinceramente, deseja abrir mão de sua anomalia; ou, em linguagem corrente, um Homem Doente que, embora se diga que ele infantilmente o negue, com freqüência emite terríveis urros de dor, como se do fundo do coração desejasse se desfazer tanto de sua arte como de sua alma para sentir o que nas outras pessoas passa por sanidade; e, todavia (continua o boato), quando em seu quarto de aparência pouco salutar entra alguém – quase sempre alguém que de fato o ama – e apaixonadamente lhe pergunta de onde provém a dor, o artista se limita a desmentir que ela exista ou parece incapaz de discuti-la em termos clinicamente úteis; e pela manhã, quando se supõe que até os grandes poetas e pintores se sentem um pouco mais bem-dispostos que de costume, ele parece mais perversamente decidido do que nunca a deixar que a enfermidade siga seu curso, como se, à luz de outro dia, supostamente de trabalho, houvesse se lembrado de que todos os homens, inclusive os sãos, um dia hão de morrer e poucas vezes o fazem de bom grando, enquanto ele, felizardo, ao menos está sendo consumido pelo mais estimulante companheiro, doença ou não, que já conheceu. Em suma – conquanto isso possa soar como uma traição partindo de quem, como venho insinuando ao longo desta quase-polêmica, conta com um artista morto em sua família imediata -, não vejo como seja racionalmente possível negar que este último boato contenha uma boa dose de verdade. Enquanto meu ilustre parente viveu, eu o observei – quase literalmente, às vezes penso – como um falcão. À luz de qualquer definição lógica, ele era um ser enfermo, ele de fato, em suas piores noites ou fins de tarde, emitia não apenas gritos de dor como também pedidos de ajuda; e, quando chegava alguém disposto a ajudá-lo, ele se recusava mesmo a dizer em palavras inteligíveis de onde provinha a dor. Mesmo assim, censuro sem rodeios os supostos entendidos na matéria – os pesquisadores literários, os biógrafos e sobretudo a aristocracia intelectual hoje no poder, formada numa ou noutra das grandes escolas psicanalíticas -, e os censuro ainda mais amargamente por não prestarem atenção quando ouvem um grito de dor. Não podem, lógico, pois constituem uma nobreza de ouvidos moucos. Com equipamentos tão defeituoso, com tais ouvidos, como alguém seria capaz, apenas pela qualidade do som, de rastrear a dor até sua origem? Creio que, com um aparelho auditivo tão infame, o máximo que conseguem registrar, e talvez comprovar, são alguns ecos ocasionais e inexpressivos – nem mesmo um contraponto – de uma infância conturbada ou de uma libido fora de prumo. Mes de onde vem o resto todo da carga de dor, capaz de encher uma ambulância até o teto? De onde ela deve vir? O verdadeiro poeta ou pintor não é um vidente? Não é ele, de fato, o único vidente na face da Terra? Muito provavelmente não o é o cientista, e muitíssimo menos o psiquiatra. (É certo que o único grande poeta que os psicanalistas tiveram foi o próprio Freud; sem dúvida ele também sofria de um pequeno defeito de audição, mas quem, em sã consciência, pode negar que ali existia um poeta épico?) Perdoe-me, estou quase acabando. Num vidente, qual parte da anatomia humana deveria, necessariamente, ser a mais maltratada? Os olhos, claro! Por favor, meu caro leitor comum, como derradeira indulgência (se é que você ainda está aí), releia aquelas duas curtas passagens de Kafka e Kierkegaard com que comecei. Não é evidente? Então não é dos olhos que provêm diretamente aqueles gritos? Por mais contraditório que seja o resultado da autópsia – conquanto se atribua a morte à Tuberculose, à Solidão ou ao Suicídio -, não é óbvio como de fato morre o verdadeiro artista-vidente? Afirmo (e tudo o que se segue muito possivelmente depende de que eu esteja ao menos próximo da verdade), – afirmo que o genuíno artista-vidente, o divino imbecil que produz beleza, morre ofuscado por seus próprios escrúpulos, pelas formas e cores deslumbrantes de sua própria consciência, sagradamente humana.

Eis aí meu credo. Recosto-me na cadeira. Suspiro – um suspiro de felicidade, imagino. Acendo um cigaro e vou em frente, se Deus quiser.

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Jerome David Salinger

Tradução de Jorio Dauster

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