Minha ex-namorada me acordou de madrugada dizendo que estava grávida e que o filho era meu.
Ela dizia que tínhamos que decidir o que fazer e perguntava insistentemente onde eu estava. Eu disse que estava dormindo, em casa, ela queria saber em que cidade, eu disse que estava em São Paulo e ouvi como que um suspiro dela revelar a esperança em que eu tivesse ido a Porto Alegre.
Perguntei onde ela estava e ela disse que estava dando umas voltas de carro com minha outra ex-namorada.
Pensei que as duas podiam estar bêbadas e cheiradas e fiquei imaginando sobre o que teriam conversado.
Ela disse que o cartão do telefone estava acabando e que eu deveria ligar pra ela. Eu disse que não tinha saldo em nenhum dos dois celulares, mas ela disse que eu tinha sim, tinha bônus, e desligou.
Eu tentei ligar pra ela mas não consegui, não havia saldo nem bônus.
Então voltei a deitar a cabeça no travesseiro e estava quase pegando no sono quando o telefone voltou a tocar. Era ela, dessa vez ligando com o telefone do pai.
- Eu não posso falar muito, ela disse, mas temos que conversar e decidir o que fazer o quanto antes. Temos que sentar que nem gente e conversar, senão eu vou falar pra minha mãe e vou falar pra minha mãe falar com a tua mãe.
- Cara – não pude deixar de dizer -, de onde tu tirou que esse filho é meu? De onde tu tirou que tá grávida?
- Eu não transei com ninguém depois que a gente transou na última vez que tu veio, e minha menstruação não veio mais depois disso. Esse negócio ta fodendo minha cabeça, só quero que a gente decida rápido o que fazer, eu sei que é teu, se quiser fazer o DNA e pagar esse mico, fica à vontade, eu sei o que eu faço, se tu não sabe, azar o teu.
- Cara… – e eu fiquei pensando no que dizer, mas ainda estava com muito vinho e maconha e sonhos e pesadelos na cabeça – … eu não sei, se for meu filho, massa, beleza, se não for, não sei, eu gosto de ti, se tu precisar de alguma ajuda, cara, pode contar comigo.
Ela começou a chorar.
- É teu, seu idiota. Eu tenho que desligar. Me liga, eu sei que tu tem bônus.
- Cara, não tenho bônus.
- Meu número continua o mesmo, me liga.
Ela desligou.
E o quarto voltou a ficar escuro e silencioso.